No meio de uma manhã me sentei numa cadeira de praia bem embaixo de uma goiabeira do Cerrado. A pequena casa que havíamos reformado durante a pandemia agora parecia abandonada. O azul royal das paredes externas se misturava ao acinzentado dos fungos, às manchas de respingos de barro e aos inúmeros musgos e samambaias que cresciam por entre as frestas. De onde estava, conseguia enxergar a porta de madeira da cozinha que tinha sido desenhada sob medida, lixada e instalada milimetricamente. Um pouco mais à direita, a janela enorme acima da pia permitia que a luz entrasse, formando um contorno amarronzado do batente na parte de fora. Os ramos do abacateiro se debruçavam sobre as telhas francesas garantindo um cheiro adocicado, no mês de abril, e um tapete de minúsculas flores amareladas. Ao fundo, uma mata densa circundava a área e se estendia até o riacho. Verdes em dégradé num céu azul sem nuvens. Um barulhinho bom de água correndo. Friccionei meus pés descalços na terra com pedregulhos. O lagarto correu rapidamente e se escondeu nas touceiras de capim-limão. Zumbidos de besouros, pernilongos, moscas e vespinhas. Minha pele úmida sendo lambida por pequenas abelhas. As asinhas listradas se levantavam e abaixavam no meu braço, fazendo cosquinhas. Duas borboletas azuladas faziam uma dança voadora entre a amoreira e as ervas aromáticas que havia plantado na entrada. Lembrei do dia que presenciei a cena mais bonita naquele sítio.
Da sala, eu e meu filho avistamos uma seriema rondando o pé de caju. Num pulo, ela pegou o fruto com o bico vermelho, levou para o chão, destrinchou com as garras e comeu a parte carnuda. Fiquei pensando no privilégio de presenciar aquele momento. Escutei um arrulhar das asas de um colibri e tentei acompanhar com os olhos. Em vão. Um tucano voou de uma embaúba para o angico. Um vento leve chegou como onda, balançando as folhas num farfalhar seco. Acompanhei uma mamangava que estava nos ramos do maracujá subir próximo à caixa d’água e retornar para perto de mim. Foi quando reparei em um marimbondo cavalo pousado no tronco curvado do pé de goiaba. Havia umas formigas maiores, andando em fila, quando o marimbondo levantou um pequeno voo e pousou entre elas. Paralisaram. Num fragmento de segundo, comeu uma. Não acreditei no que via. Prestei mais atenção. Fez o mesmo movimento e mais uma foi engolida. Pousou no final da carreira de formigas e, novamente, a mesma habilidade devoradora. Não sabia que aquela vespa comia formigas. Foram umas sete. Depois, voou para o ninho que estava junto ao caibro do telhado. Passou pelas sentinelas e deve ter regurgitado as formigas maceradas para alimentar as larvas. Fiquei estarrecida com o que vi. Quem mais já haveria presenciado esse processo? Será que o marimbondo era fêmea? Será que me notou? Será que as formigas temiam a iminência da morte? Será que o calor que sentimos na cidade chegou até à colmeia? A ausência de pausas no cotidiano nos impede de apreciar os detalhes. A densidade de organismos que percebi, naqueles minutos, por estar afastada da correria insana dos grandes centros me permitiu sentir um tempo outro. Vegetais em coletivos respiratórios agregando seres. Ecologias que sustentam nascimentos. Ventres que nutrem futuras mães. Trabalho que gera
vida. Uma rede microscópica de energia biológica pulsando a produção do mundo.
DANIELA FRANCO CARVALHO escrevo adensamentos cotidianos em meio a pensamentos ecológicos com mulheres que mudam o mundo. Bióloga de formação, professora universitária, tenho estudado as artistas visuais que produzem suas obras na perspectiva ecofeminista. Elaboro narrativas que tangenciam sensibilidades na interface arte-ciência.